Oração pelas pessoas migrantes, refugiadas e descolocadas

« Erga a voz em favor dos que não podem defender-se, seja o defensor de todos os desamparados. Erga a voz e julgue com justiça; defenda os direitos dos pobres e dos necessitados ». (Provérbios 31, 8-9).

Senhor, no passo e no movimento de vida e por mais vida, seguimos em marcha, no reconhecimento de nosso pertencimento filial Contigo. Somos Teus filhos e filhas, espalhados/as neste planeta em rotação. Estamos em constante mobilidade humana, na busca de SER Contigo. Teu Espirito nos congrega e nos anima a perseverar, seguimos caminhando em direção de um sentido coletivo “rumo a um nós cada vez maior”[1] e pleno de vida digna.

As pessoas migrantes, refugiadas e deslocadas carregam consigo, não somente as dores, traumas, lágrimas e lamentos das vozes e histórias que deixaram para trás, mas também portam, nos ombros e coração, os sonhos e desejos, que não envelhecem, de vivenciarem uma situação diferente, construir uma nova sociedade, no ritmo da esperança atuante. Esse movimento ajuda a desenvolver uma capacidade de superação constante, que orienta a uma contribuição e valorização da pessoa humana, em sua diversidade, “daí a necessidade de uma igualdade que reconheça as diferenças e de uma diferença que não produza, alimente ou reproduza as desigualdades”[2].  Assim, nutrimos o sonho coletivo de uma sociedade que se fundamenta na civilização do amor.

Os fundamentos bíblicos de nossas raízes ajudam a iluminar nosso caminhar como humanidade. Neste sentido, contemplamos a história de Rute que acompanha Noemi, em uma terra estrangeira, onde experimenta desafios, mas também solidariedade e generosidade (Rute 2). A dimensão da interculturalidade supõe um acompanhar-se na fé, que perpassa pela acolhida e aprendizagens reciprocas: aprender o idioma do/a outro/a, formas de comunicar, de ser e fazer.  Este movimento de acolhida possibilita a realização de tarefas concretas no processo de inclusão na transformação social e interações socioeconômicas e educacionais que constroem novas relações e possibilidades de inserção diante da multidão de vulneráveis.

Acessar direitos básicos nos processos migratórios é indispensável. Ter documentação, trabalho, pão, moradia, saúde, dentre outros direitos e garantias cidadãs fundamentais, possibilita o reconhecimento da dignidade inerente à pessoa (Pernet).  Todos os tipos de migrações, forçadas ou não, denunciam que a vida pede passagem e exige um lugar no mundo, em condições habitáveis para todas e todos.

Senhor, que não sejamos tomados/as pela “fadiga da tragédia dos refugiados”[3], habituando-nos ao sofrimento das pessoas que, fugindo de guerras, fomes, condições adversas climáticas, perseguições, necessitam de um lugar para se refugiar, para reconstruir suas vidas, que buscam, como nós, melhoria de suas condições de existência e que têm potenciais para colaborar com o crescimento do país de chegada.  Para que possamos ver as pessoas imigrantes como potenciais auxílios à economia, e não como obstrução, que suas experiências e saberes sejam valorizados no país de acolhida. 

Suplicamos, Senhor, que nos ajude a superar as fronteiras da ansiedade, do medo, da indiferença e de todas as formas de barreiras que oprimem as pessoas e dificultam ou impedem a acolhida, o diálogo, o perdão, a reconciliação, o encontro.  

Queremos ser pontes indestrutíveis e não muros na vida das pessoas, aspiramos transpor a “cultura dos muros”[4], ansiamos restaurar as forças e caminhar, contra a própria loucura dos sistemas que desestimulam e desarticulam a luta com o povo, na busca de seus direitos integrais. Pedimos ao Deus da vida que nos conduza, nesta travessia, na certeza de que só o amor constrói pontes sólidas e acessíveis.

Senhor, sustenta as pessoas, famílias e grupos que nasceram e convivem em campos de refugiados, confinadas em espaço restrito, administrando sentimentos de um passado vivido em seu país de origem e o dinamismo de esperança vigilante de que a situação vivenciada possa ser regenerada, transfigurada.

Guia-nos, Senhor, no Teu caminho, migrantes, refugiados/as, deslocados/as e todos/as nós, chamados/as à acolhida, convivência, encontro.  Fortalece cada um/uma na alegria de sua vocação e na prática da solidariedade, em atitudes e gestos simples de serviço, na perspectiva da compaixão, cuidado e cura, que superam todas as fronteiras físicas e simbólicas. Um convite, pois, a um olhar múltiplo, diálogo de saberes e entendimentos sobre a chegada e a partida.

Pessoas são perseguidas e mortas por defenderem a dignidade e direitos de pessoas migrantes. Que cessem, Senhor, os ataques às pessoas migrantes e seus/suas defensores/as.  Que possamos identificar nas pessoas migrantes, refugiadas e deslocadas a personificação do colapso de um sistema que explora e desconsidera a vida em todas as suas manifestações.  Que consigamos ver no capitalismo a raiz dos males que afetam as pessoas em sua condição de vida, que impossibilitam, por vezes, o direito de ir e vir ou mesmo permanecer em sua terra.

Deus da vida fortaleça os todos os profetas de hoje que lutam em defesa dos povos, das comunidades e das pessoas expulsas, sem lugar no mundo ou em refúgios, para que continuem firmes na missão de ser sal e luz nestes tempos de enfrentamento das misérias, opressões e injustiças.

Senhor, que organizar, resistir, lutar sejam verbos presentes em todas as frentes de combates às violências que oprimem todas as pessoas migrantes, refugiadas, deslocadas, expulsas de suas terras ou mesmo nativas, na construção de um mundo guiado pela fraternidade e sororidade.

Amém!

Comissão JPIC IA Brasil


[1] Francisco, Mensagem do Papa Francisco para o 107º Dia Mundial do Migrante e do Refugiado (26 de setembro de 2020), AAS (2021), p. 1.

[2] Boaventura de Sousa Santos, Reconhecer para libertar: os caminhos do cosmopolitanismo multicultural, Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2003, p. 56.

[3] Zygmunt Bauman, Estranhos à nossa porta, tradução Carlos Alberto Medeiros – 1ª ed., Rio de Janeiro: Zahar, 2017, p. 9.

[4] Francisco, Carta enc. Fratelli tutti (04 de outubro de 2020), 27:  AAS (2020), p. 8.

Partage

Partager sur facebook
Partager sur twitter
Partager sur whatsapp
Partager sur email
Partager sur print

Editorial

Plus d'articles :

In a country once forested

The young woodland remembers the old, a dreamer dreaming Of an old holy book, an old set of instructions And the soil under the grass

Jesús, el Cristo

“En su visión Enoc vio al Hijo del Hombre restaurando los grandes lazos de la creación, sanando la fisura entre el cielo y la tierra

Envoyez-nous un message