{"id":906,"date":"2020-04-28T05:00:00","date_gmt":"2020-04-28T03:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/jpic-assumpta.org\/?p=906"},"modified":"2020-04-28T12:16:56","modified_gmt":"2020-04-28T10:16:56","slug":"cuidar-de-si-e-dos-outros-em-tempos-de-coronavirus","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/jpic-assumpta.org\/index.php\/2020\/04\/28\/cuidar-de-si-e-dos-outros-em-tempos-de-coronavirus\/","title":{"rendered":"Cuidar de si e dos outros em tempos de coronavirus"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Leonardo Boff<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><br>Vivemos tempos dram\u00e1ticos sob o ataque do coronav\u00edrus, uma esp\u00e9cie de guerra contra um inimigo invis\u00edvel contra o qual todo o arsenal destrutivo de armas nucleares, qu\u00edmicas e biol\u00f3gicas constru\u00eddas pelas pot\u00eancias militaristas, s\u00e3o totalmente in\u00fateis e at\u00e9 rid\u00edculas. O Micro (v\u00edrus) est\u00e1 derrotando o Macro(n\u00f3s).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><br>Temos que nos cuidar pessoalmente e cuidar dos outros, para podermos nos salvar juntos. Aqui n\u00e3o valem os valores da cultura do capital, a competi\u00e7\u00e3o, mas a coopera\u00e7\u00e3o, n\u00e3o o lucro mas a vida, n\u00e3o a riqueza de uns poucos e a pobreza das grandes maiorias, n\u00e3o a devasta\u00e7\u00e3o da natureza mas o seu cuidado. Estamos dentro do mesmo barco e sentimos que somos seres que dependemos uns dos outros. Aqui somos todos iguais e com o mesmo destino feliz ou tr\u00e1gico.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><br><strong>&nbsp;O que somos enquanto humanos?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><br>Nesses momentos de isolamento social for\u00e7ado, temos a oportunidade de pensarmos sobre n\u00f3s mesmos e o que realmente somos. Sabemos quem somos? Qual \u00e9 o nosso lugar no conjunto dos seres? Para que existimos? Por que podemos ser acometidos pelo coronav\u00edrus e at\u00e9 morrer? Para onde vamos? Re\ufb02etindo nestas perguntas inadi\u00e1veis cabe lembrar a pondera\u00e7\u00e3o de Blaise Pascal(+1662). Ningu\u00e9m melhor do que ele, matem\u00e1tico, \ufb01l\u00f3sofo e m\u00edstico, para expressar o ser complexo que somos:<br>\u201cQue \u00e9 o ser humano na natureza? Um nada diante do in\ufb01nito, e um tudo diante do nada, um elo entre o nada e o tudo, mas incapaz de ver o nada de onde veio e o in\ufb01nito para onde vai\u201d(Pens\u00e9es \u00a7 72). Nele se cruzam os quatro in\ufb01nitos: o in\ufb01nitamente pequeno, o in\ufb01nitamente grande, o in\ufb01nitamente complexo ( Teihard de Chardin) e o in\ufb01nitamente profundo.<br>Na verdade, n\u00e3o sabemos bem quem somos. Ou melhor, descon\ufb01amos de alguma coisa na medida em que vivemos e acumulamos experi\u00eancias.<br>Em um somos muitos. Al\u00e9m daquilo que somos, vigora em n\u00f3s aquilo que podemos ser: o inesgot\u00e1vel cabedal de virtualidades escondidas dentro de n\u00f3s. Nosso potencial \u00e9 aquilo que \u00e9 o mais verdadeiro em n\u00f3s. Dai a nossa di\ufb01culdade de construirmos uma representa\u00e7\u00e3o satisfat\u00f3ria do que somos. Mas isso n\u00e3o nos dispensa de elaborarmos algumas chaves de leitura que, de alguma maneira, nos orientam na busca daquilo que queremos e poderemos ser.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><br>\u00c9 nesta busca que o&nbsp;cuidado de si mesmo&nbsp;desempenha uma fun\u00e7\u00e3o decisiva. Especialmente nesse momento dram\u00e1tico,quando estamos expostos de um inimigo invis\u00edvel que nos pode matar ou atrav\u00e9s de n\u00f3s, levar a doen\u00e7a ou a morte aos outros. N\u00e3o se trata, primeiramente, de um olhar narcisista sobre o pr\u00f3prio eu o que leva, geralmente, a n\u00e3o conhecer-se a si mesmo mas identi\ufb01car-se com uma imagem projetada de si mesmo e, por isso, alienada e alienante.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><br>Foi o \ufb01l\u00f3sofo Michel Foucault que com sua minuciosa investiga\u00e7\u00e3o \u201cHermen\u00eautica do sujeito\u201d(1984,em portugu\u00eas 2004) que tentou resgatar a tradi\u00e7\u00e3o ocidental do cuidado do sujeito, especialmente nos s\u00e1bios do s\u00e9culo II\/III como S\u00eaneca, Marco Aur\u00e9lio, Epiteto e outros. O grande&nbsp;motto&nbsp;era o famoso&nbsp;\u201cgh\u00f4ti seaut\u00f3n\u201d&nbsp;\u201cconhe\u00e7a-te a ti mesmo\u201d. Esse conhecimento n\u00e3o era entendido de forma abstrata mas concreta como : reconhe\u00e7a-te naquilo que \u00e9s, procure aprofundar-te em ti mesmo para descobrires tuas potencialidades; tente realizar aquilo que de fato \u00e9s\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><br>Importa a\ufb01rmar em primeiro lugar: o ser humano \u00e9 um sujeito e n\u00e3o uma coisa. N\u00e3o \u00e9 uma subst\u00e2ncia, constitu\u00edda uma vez por todas (Foucault,&nbsp;Hermen\u00eautica do sujeito, 2004), mas um n\u00f3 de rela\u00e7\u00f5es sempre ativo que mediante o jogo das rela\u00e7\u00f5es est\u00e1 continuamente se construindo a si mesmo. Nunca estamos prontos, mas sempre nos formando.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><br>Todos os seres do universo, consoante a nova cosmologia, s\u00e3o portadores de certa subjetividade porque sempre est\u00e3o se relacionando e trocando informa\u00e7\u00e3o. Por isso eles t\u00eam hist\u00f3ria e um certo n\u00edvel de conhecimento inscrito em seu DNA.. Esse \u00e9 um princ\u00edpio cosmol\u00f3gico universal. Mas o ser humano realiza uma modalidade pr\u00f3pria deste princ\u00edpio relacional que \u00e9 o fato de ser um sujeito consciente e re\ufb02exivo. Ele sabe que sabe e sabe que n\u00e3o sabe e, para sermos completos, n\u00e3o sabe que n\u00e3o sabe como dizia ironicamente Miguel de Unamuno.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><br>Este n\u00f3 de rela\u00e7\u00f5es se articula a partir de um centro ao redor do qual organiza os sentimentos, as id\u00e9ias, os sonhos e as proje\u00e7\u00f5es. Este centro \u00e9 um eu, \u00fanico e irrepet\u00edvel. Ele representa, na linguagem do \ufb01l\u00f3sofo mais sutil de todos os medievais, o franciscano Duns Scotus(+1203), a \u201cultima soiitudo entis\u201d, a \u201c\u00faltima solid\u00e3o do ser\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><br>Esta solid\u00e3o signi\ufb01ca que o eu \u00e9 insubstitu\u00edvel e irrenunci\u00e1vel. Mas lembremos: deve ser entendido no contexto do n\u00f3 de rela\u00e7\u00f5es dentro do processo global de interdepend\u00eancias, de sorte que a solid\u00e3o n\u00e3o \u00e9 o desligamento dos outros. Ela signi\ufb01ca a singularidade e a especi\ufb01cidade inconfund\u00edvel de cada um. Portanto, esta solid\u00e3o \u00e9 para a comunh\u00e3o, \u00e9 um estar s\u00f3 em sua identidade para poder estar com o outro diferente e poder ser um-para-o-outro e com-o-outro. O eu nunca est\u00e1 s\u00f3.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Artigo completo: anexo em pdf<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-file\"><a href=\"https:\/\/jpic-assumpta.org\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/BOFF-Leonardo.-Cuidar-de-si-e-dos-outros-em-tempos-de-coronav\u00edrus..pdf\">BOFF-Leonardo.-Cuidar-de-si-e-dos-outros-em-tempos-de-coronav\u00edrus.<\/a><a href=\"https:\/\/jpic-assumpta.org\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/BOFF-Leonardo.-Cuidar-de-si-e-dos-outros-em-tempos-de-coronav\u00edrus..pdf\" class=\"wp-block-file__button\" download>T\u00e9l\u00e9charger<\/a><\/div>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Photo by Claudia-Van-Zyl on Unsplash<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Leonardo Boff Vivemos tempos dram\u00e1ticos sob o ataque do coronav\u00edrus, uma esp\u00e9cie de guerra contra um inimigo invis\u00edvel contra o qual todo o arsenal destrutivo de armas nucleares, qu\u00edmicas e biol\u00f3gicas constru\u00eddas pelas pot\u00eancias militaristas, s\u00e3o totalmente in\u00fateis e at\u00e9 rid\u00edculas. 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